Não raras vezes tive surpresas com performances inusitas de violonistas no youtube, desde africanos tocando de formas impensáveis até verdadeiros homens-banda, como Andy Mckee, o jovem prodígio Sungha Jung, ou mesmo Miyavi que tem o hábito de tocar slap, que é uma técnica de baixistas experientes, no violão. Pra economizar postagens, tá tudo em hyperlink, mas o prodígio de hoje é o mestre do violão Jon Gomm com a performance de Passion Flower, em que, sozinho, simula distorção de guitarra, muda a afinação das cordas enquanto toca, faz a percussão e canta ao mesmo tempo uma canção que é de composição própria dele mesmo! Yngwie Malmsteen que me perdoe, mas pra mim o conjunto da obra de Jon Gomm superou todos os anteriores. Just keep Chucking Norris!
Todo mundo tem
uma noção do que seja algo "punk": roupas rasgadas, cabelo moicano,
piercings, tatuagens e um som cru característico em que músicas de 3 acordes
são executadas rapidamente, com muito barulho de bateria. Pelo menos era assim.
O punk teve uma
de suas cenas mais importantes na Inglaterra da década de 1970, mas ao chegar
nós EUA na década de 80 passou a ser mais rápido e agressivo, passando a ser
denominado hardcore, um som característico um tanto mais percursivo e complexo.
Bandas de hardcore como, por exemplo, Living Sacrifice tem muito a ver até com
a cena metal. Então surge algo chamado crossover: uma fusão entre o heavy metal
e o hardcore.
O nome
"punk" não poderia ser mais apropriado, geralmente apresentando uma
proposta social anarquista (mal interpretada, diga-se de passagem. Quem quiser
saber o que realmente é anarquista tem que ler Errico Malatesta), a palavra
"punk" significa "encrenqueiro". E os
"encrenqueiros" do Gallows não poderiam ter surgido de um país mais
apropriado: trata-se de uma banda britânica, assim como os pioneiros do punk:
Sex Pistols, apesar que o Pistols tinha um caráter mais bem humorado nas
letras.
Nas idas de 2000
o hardcore e o punk se tornaram um tanto manjados, algo comercial até, por meio
de bandas internacionais como Blink 182, Green Day e nacionais como CPM 22,
Detonautas e outros. Acho que foi por isso que tive uma surpresa extrema ao
descobrir Gallows!
O som tem uma
alma punk característica no vocal rasgado e gritado de Frank Carter, como num
protesto de rua, mas com muita influência de metal sendo praticamente uma
versão alternativa ou simplificada do heavy metal sem perder o cuidado com a
atmosfera do som nem com os solos de guitarra. As mudanças de tempo nas
canções, o cuidado com a distorção mostram que a proposta da banda é totalmente
nova: soa mais limpo do que o hardcore comum e que o crossover, mas sem perder
nada em peso, o que por si torna o estilo de Gallows algo como um new punk com
super força e laser saindo dos olhos!
Só tem um pequeno
probleminha: quem entende um pouquinho de inglês vai ter a impressão que Frank
Carter tem "síndrome de tourete" já que a palavra "fuck" e
derivados costuma aparecer MUITO e até fora de contexto nas letras (excetuando,
obviamente, a história de John Casanova, cantada em "Orchestra Of
Wolves", por razões óbvias pra quem conhece a história desse sujeito).
Enfim, ossos do ofício no punk talvez... O triste é que, apesar do som ser
vibrante, as letras quase sempre falam dos horrores da guerra, pobreza,
sofrimento e descaso com o humano. Mesmo sendo uma banda punk, as canções
destoam das letras. O som do Gallows é o tipo de coisa que você ouve num dia
feliz ou pra recuperar o ânimo, os temas geralmente não batem com a melodia,
como se um dissesse o oposto do outro, exceto talvez em "Staring At The
Rude Bois", um cover do The Rutz' que o Gallows interpreta com
participação especial do rapper Lethal Bizzle.
A discografia
essencial da banda é pequena, já que entraram em atividade no ano de 2005 ainda
tendo rendido 3 álbuns e 2 EPs, com direito a alguns singles onde consta até um
cover do Ironmaiden que saiu melhor que a encomenda e que, particulamente,
gosto mais que o original: Wrathchild. Desses, o último álbum e o último EP já
não contavam com Frank Carter nos vocais, que saiu da banda por diferenças de
opinião sobre qual direção o som deveria trilhar.
E por falar em
som, quando comparamos, por exemplo, o primeiro álbum, "Orchestra Of
Wolves", de 2006, com o segundo "Grey Britain" de 2009, a direção
do som do Gallows muda ao passar a incorporar elementos eruditos (WTF?!) no som
com muita prudência. De fato, mesmo no "Orchestra Of Wolves" já havia
uma música punk com piano e vocais limpos ao fim: "Rolling with the
Punches", dando a direção para o próximo trabalho da banda. Grey Britain
uniu punk e erudito numa harmonia perfeita, apesar do antagonismo, tornando
Gallows algo totalmente novo uma segunda vez. Destaques para "Queensberry
Rules", "Crucifucks", "The Vulture (Acts I & II)"
e "Misery".
Gosto bastante da
interpretação intensa de Frank Carter e preferia que tivesse permanecido na
banda. Não me senti à vontade para acompanhar a banda desde então. Mas pra quem
tiver curioso, fica a dica.
Quem nunca ouviu essa
música aqui embaixo, com certeza nasceu de 2000 em diante:
"Beautiful" foi uma
canção que alcançou popularidade mundial, mesmo que muita gente não fale inglês
ou não lembre o nome da banda.
O fato é que a banda
responsável por esse prodígio (os troll que me perdoem, mas a música é mesmo
ótima!) se chama Marillion, trata-se de uma banda britânica de rock progressivo
e lançou essa canção no álbum de 1995 (relançado em 1999) "Afraid Of The
Sunlight". O caso é que, apesar do sucesso na época, você não vai achar
muita coisa sobre eles na internet (apesar de haver outras bandas dá mesma
época que você acha em qualquer buraco dá rede). Como isso aconteceu?
Bom, um dos fatores é
justamente o experimentalismo nas outras canções como "Bass Frenzy",
bizarro a ponto de me lembrar um "que" presente na fórmula de algumas canções do Deftones, e versões
sutilmente diferentes das mesmas canções ("Afraid Of The Sunlight" e "Afraid
Of The Sunrise" são a mesma canção, assim como "Beautiful" e
"Second Chance"), um flerte eletrônico em "Cannibal Surf
Babe", além de "Live Forever" - uma canção que poderia muito bem ter sido
gravada por Sade, já que tem um feeling similar ao da banda.
Não é um álbum pra
bater cabeça, é melancólico, reflexivo, detalhista, mas sem exageros de solos
que se tornaram aquele clichê pouco antes do Rock Progressivo entrar em
decadência.
É cult, é raro e, na
minha humilde opinião vale à pena conferir!