Como na pastagem anterior falamos de canções cagadas sendo salvas (ou não) pelo metal, resolvi divulgar uma coleção de álbuns que me chamou a atenção desde seu lançamento. Trata-se da coleção "Punk Goes".
É verdade que, em alguns casos, as próprias bandas já haviam lançado covers bizarros em suas discografias por humor ou como estratégia de vendas; já em outros, eram convidadas a participar do projeto com regravações que reconstruíssem a canção numa espécie de "e se isso tivesse sido um hit hardcore/punk, como a música seria?"
O conceito chama atenção porque nem todas as canções originais eram ruins. Algumas coisas interessantes como Depeche Mode, REM e The Cure tiveram suas canções reconstruídas. O repertório também inclui grande variedade: a coleção inclui covers punks de clássicos do metal, rap, pop, classic rock, one hit wonders anos 80, anos 90 e até versões acústicas de canções que você com certeza já ouviu... Mas não DESSE jeito.
Em clima de
horror rock desde a saga do Inferno de Dante, chegou a hora de um duelo de
bandas no billytoindie!
De um lado com
uma discografia de 8 álbuns de estúdio, com 3 formações em épocas distintas e
vocalistas diferentes, os caras que inventaram a base do que seria o rock de
horror e seus derivados (death rock, horror punk, horror hardcore): The
Misfits.
No outro canto,
com 3 álbuns de estúdio gravados, uma contraparte que pleiteia o trono no Misfits:
Grave Robber.
Duas bandas com
características similares: base de punk rock, letras contando contos de terror
com espiritualismo e ficção científica e um baita visual de halloween. De fato,
tanto em matéria de voz quanto a pegada, são muito similares. Dá pra confundir
as bandas se você não conhecer o repertório, mas com duas diferenças
fundamentais:
a) Misfits, por
ser horror punk mais clássico, no geral tem uma batida mais lenta e chega a ser menos pesado, em comparação, que o Grave Robber, embora (confesso) seja um pouco difícil perceber.
b) Grave Robber é
uma banda de horror punk cristã (Sim, isso existe e é bem original! São
metáforas de horror dentro dos conceitos teológicos cristãos. Não que o Misfits
também não o fizesse, afinal o conceito de diabo, por exemplo, é um conceito cristão. Porém, o
Grave Robber aborda essa temática a partir da ótica cristã. Outras
bandas, como Demon Hunter, também seguem o conceito, como na letra de
"Storm The Gates of Hell").
Dois trabalhos
das bandas são épicos nessa batalha:
a) O clássico
"American Psycho" do Misfits, lançado em 1997 com Michael Graves nos
vocais, representando a melhor fase da banda (que, por intrigas infantis dos
membros, acabou não contando com a participação de Graves justamente quando
fizeram a primeira turnê que passou pelo Brasil). As letras eram basicamente
contos de terror com direito a homenagens a filmografia de Vicent Price(Abominable Dr. Phibes) alusões a literatura a exemplo de George Orwells: Guerra dos
Mundos (em Mars Attacks) ou ao Frankestein de Mary Shelley até nos apelidos dos integrantes da banda (o guitarrista era conhecido como Doyle Wolfgang von Frankenstein), além de canções sobre ataques zumbis (Day of The Dead) e muito mais! Halloween total com selo de aprovação de
Jack Pumpkin Head.
b) Um álbum
igualmente notório competindo de igual pra igual com "American
Psycho" é o "Be Afraid" do Grave Robber. Falando de exorcismo (The Exorcist), caça às
bruxas (Burn Witch, Burn!), psicopatia (Skeletons), contra o aborto (aliás, numa das melhores canções do álbum:
"Screams of The Voiceless"), esquizofrenia (Schizofiend), zumbis (I, Zombie), com direito a
jargões médicos como o que dá título à canção "Rigor Mortis" (termo
em latim comum em necrópsia já que se trata do enrijecimento do corpo
cadavérico poucas horas após a morte, usado em perícia criminal como referência
para dar a hora estimada da morte em estilo CSI). Como o cristianismo é um
religião bastante gótica (diga-se de passagem: tem coisa mais gótica que um
Deus que morre torturado no lugar da criação pra evitar sua destruição e volta
dos mortos com juras de vingança contra as forças do mal? Aliás, tem muito disso
na canção Golgotha), há conceitos bizarros como "morrer para o
pecado" e "nascer de novo" representado em ritos como o batismo
representando mudança de vida, comportamento, visão de mundo, etc, que implicam
em deixar Deus matar o mau dentro de você a cada dia... Tudo isso muito em
evidência e falado de forma bem humorada, por exemplo, na canção I Wanna Kill
You Over and Over Again", além de uma abordagem pra lá de halloween do juízo final em "Bloodbath" ("banho de sangue" como dupla alusão: morte de Cristo e sua vingança final).
É uma batalha de
pesos pesados... Cá entre nós, eu apostaria em EMPATE POR DUPLO NOCAUTE!
Todo mundo tem
uma noção do que seja algo "punk": roupas rasgadas, cabelo moicano,
piercings, tatuagens e um som cru característico em que músicas de 3 acordes
são executadas rapidamente, com muito barulho de bateria. Pelo menos era assim.
O punk teve uma
de suas cenas mais importantes na Inglaterra da década de 1970, mas ao chegar
nós EUA na década de 80 passou a ser mais rápido e agressivo, passando a ser
denominado hardcore, um som característico um tanto mais percursivo e complexo.
Bandas de hardcore como, por exemplo, Living Sacrifice tem muito a ver até com
a cena metal. Então surge algo chamado crossover: uma fusão entre o heavy metal
e o hardcore.
O nome
"punk" não poderia ser mais apropriado, geralmente apresentando uma
proposta social anarquista (mal interpretada, diga-se de passagem. Quem quiser
saber o que realmente é anarquista tem que ler Errico Malatesta), a palavra
"punk" significa "encrenqueiro". E os
"encrenqueiros" do Gallows não poderiam ter surgido de um país mais
apropriado: trata-se de uma banda britânica, assim como os pioneiros do punk:
Sex Pistols, apesar que o Pistols tinha um caráter mais bem humorado nas
letras.
Nas idas de 2000
o hardcore e o punk se tornaram um tanto manjados, algo comercial até, por meio
de bandas internacionais como Blink 182, Green Day e nacionais como CPM 22,
Detonautas e outros. Acho que foi por isso que tive uma surpresa extrema ao
descobrir Gallows!
O som tem uma
alma punk característica no vocal rasgado e gritado de Frank Carter, como num
protesto de rua, mas com muita influência de metal sendo praticamente uma
versão alternativa ou simplificada do heavy metal sem perder o cuidado com a
atmosfera do som nem com os solos de guitarra. As mudanças de tempo nas
canções, o cuidado com a distorção mostram que a proposta da banda é totalmente
nova: soa mais limpo do que o hardcore comum e que o crossover, mas sem perder
nada em peso, o que por si torna o estilo de Gallows algo como um new punk com
super força e laser saindo dos olhos!
Só tem um pequeno
probleminha: quem entende um pouquinho de inglês vai ter a impressão que Frank
Carter tem "síndrome de tourete" já que a palavra "fuck" e
derivados costuma aparecer MUITO e até fora de contexto nas letras (excetuando,
obviamente, a história de John Casanova, cantada em "Orchestra Of
Wolves", por razões óbvias pra quem conhece a história desse sujeito).
Enfim, ossos do ofício no punk talvez... O triste é que, apesar do som ser
vibrante, as letras quase sempre falam dos horrores da guerra, pobreza,
sofrimento e descaso com o humano. Mesmo sendo uma banda punk, as canções
destoam das letras. O som do Gallows é o tipo de coisa que você ouve num dia
feliz ou pra recuperar o ânimo, os temas geralmente não batem com a melodia,
como se um dissesse o oposto do outro, exceto talvez em "Staring At The
Rude Bois", um cover do The Rutz' que o Gallows interpreta com
participação especial do rapper Lethal Bizzle.
A discografia
essencial da banda é pequena, já que entraram em atividade no ano de 2005 ainda
tendo rendido 3 álbuns e 2 EPs, com direito a alguns singles onde consta até um
cover do Ironmaiden que saiu melhor que a encomenda e que, particulamente,
gosto mais que o original: Wrathchild. Desses, o último álbum e o último EP já
não contavam com Frank Carter nos vocais, que saiu da banda por diferenças de
opinião sobre qual direção o som deveria trilhar.
E por falar em
som, quando comparamos, por exemplo, o primeiro álbum, "Orchestra Of
Wolves", de 2006, com o segundo "Grey Britain" de 2009, a direção
do som do Gallows muda ao passar a incorporar elementos eruditos (WTF?!) no som
com muita prudência. De fato, mesmo no "Orchestra Of Wolves" já havia
uma música punk com piano e vocais limpos ao fim: "Rolling with the
Punches", dando a direção para o próximo trabalho da banda. Grey Britain
uniu punk e erudito numa harmonia perfeita, apesar do antagonismo, tornando
Gallows algo totalmente novo uma segunda vez. Destaques para "Queensberry
Rules", "Crucifucks", "The Vulture (Acts I & II)"
e "Misery".
Gosto bastante da
interpretação intensa de Frank Carter e preferia que tivesse permanecido na
banda. Não me senti à vontade para acompanhar a banda desde então. Mas pra quem
tiver curioso, fica a dica.