Como na pastagem anterior falamos de canções cagadas sendo salvas (ou não) pelo metal, resolvi divulgar uma coleção de álbuns que me chamou a atenção desde seu lançamento. Trata-se da coleção "Punk Goes".
É verdade que, em alguns casos, as próprias bandas já haviam lançado covers bizarros em suas discografias por humor ou como estratégia de vendas; já em outros, eram convidadas a participar do projeto com regravações que reconstruíssem a canção numa espécie de "e se isso tivesse sido um hit hardcore/punk, como a música seria?"
O conceito chama atenção porque nem todas as canções originais eram ruins. Algumas coisas interessantes como Depeche Mode, REM e The Cure tiveram suas canções reconstruídas. O repertório também inclui grande variedade: a coleção inclui covers punks de clássicos do metal, rap, pop, classic rock, one hit wonders anos 80, anos 90 e até versões acústicas de canções que você com certeza já ouviu... Mas não DESSE jeito.
Todo mundo tem
uma noção do que seja algo "punk": roupas rasgadas, cabelo moicano,
piercings, tatuagens e um som cru característico em que músicas de 3 acordes
são executadas rapidamente, com muito barulho de bateria. Pelo menos era assim.
O punk teve uma
de suas cenas mais importantes na Inglaterra da década de 1970, mas ao chegar
nós EUA na década de 80 passou a ser mais rápido e agressivo, passando a ser
denominado hardcore, um som característico um tanto mais percursivo e complexo.
Bandas de hardcore como, por exemplo, Living Sacrifice tem muito a ver até com
a cena metal. Então surge algo chamado crossover: uma fusão entre o heavy metal
e o hardcore.
O nome
"punk" não poderia ser mais apropriado, geralmente apresentando uma
proposta social anarquista (mal interpretada, diga-se de passagem. Quem quiser
saber o que realmente é anarquista tem que ler Errico Malatesta), a palavra
"punk" significa "encrenqueiro". E os
"encrenqueiros" do Gallows não poderiam ter surgido de um país mais
apropriado: trata-se de uma banda britânica, assim como os pioneiros do punk:
Sex Pistols, apesar que o Pistols tinha um caráter mais bem humorado nas
letras.
Nas idas de 2000
o hardcore e o punk se tornaram um tanto manjados, algo comercial até, por meio
de bandas internacionais como Blink 182, Green Day e nacionais como CPM 22,
Detonautas e outros. Acho que foi por isso que tive uma surpresa extrema ao
descobrir Gallows!
O som tem uma
alma punk característica no vocal rasgado e gritado de Frank Carter, como num
protesto de rua, mas com muita influência de metal sendo praticamente uma
versão alternativa ou simplificada do heavy metal sem perder o cuidado com a
atmosfera do som nem com os solos de guitarra. As mudanças de tempo nas
canções, o cuidado com a distorção mostram que a proposta da banda é totalmente
nova: soa mais limpo do que o hardcore comum e que o crossover, mas sem perder
nada em peso, o que por si torna o estilo de Gallows algo como um new punk com
super força e laser saindo dos olhos!
Só tem um pequeno
probleminha: quem entende um pouquinho de inglês vai ter a impressão que Frank
Carter tem "síndrome de tourete" já que a palavra "fuck" e
derivados costuma aparecer MUITO e até fora de contexto nas letras (excetuando,
obviamente, a história de John Casanova, cantada em "Orchestra Of
Wolves", por razões óbvias pra quem conhece a história desse sujeito).
Enfim, ossos do ofício no punk talvez... O triste é que, apesar do som ser
vibrante, as letras quase sempre falam dos horrores da guerra, pobreza,
sofrimento e descaso com o humano. Mesmo sendo uma banda punk, as canções
destoam das letras. O som do Gallows é o tipo de coisa que você ouve num dia
feliz ou pra recuperar o ânimo, os temas geralmente não batem com a melodia,
como se um dissesse o oposto do outro, exceto talvez em "Staring At The
Rude Bois", um cover do The Rutz' que o Gallows interpreta com
participação especial do rapper Lethal Bizzle.
A discografia
essencial da banda é pequena, já que entraram em atividade no ano de 2005 ainda
tendo rendido 3 álbuns e 2 EPs, com direito a alguns singles onde consta até um
cover do Ironmaiden que saiu melhor que a encomenda e que, particulamente,
gosto mais que o original: Wrathchild. Desses, o último álbum e o último EP já
não contavam com Frank Carter nos vocais, que saiu da banda por diferenças de
opinião sobre qual direção o som deveria trilhar.
E por falar em
som, quando comparamos, por exemplo, o primeiro álbum, "Orchestra Of
Wolves", de 2006, com o segundo "Grey Britain" de 2009, a direção
do som do Gallows muda ao passar a incorporar elementos eruditos (WTF?!) no som
com muita prudência. De fato, mesmo no "Orchestra Of Wolves" já havia
uma música punk com piano e vocais limpos ao fim: "Rolling with the
Punches", dando a direção para o próximo trabalho da banda. Grey Britain
uniu punk e erudito numa harmonia perfeita, apesar do antagonismo, tornando
Gallows algo totalmente novo uma segunda vez. Destaques para "Queensberry
Rules", "Crucifucks", "The Vulture (Acts I & II)"
e "Misery".
Gosto bastante da
interpretação intensa de Frank Carter e preferia que tivesse permanecido na
banda. Não me senti à vontade para acompanhar a banda desde então. Mas pra quem
tiver curioso, fica a dica.
Engraçado a
extinta MTV (extinta pra mim que tenho antena parabólica, aliás, não me faz
falta) certa feita fez um Top Top com os 10 maiores fiascos da música e entre
eles estava Billy Idol em uma posição qualquer por causa do fracasso comercial
do álbum Cyberpunk. Mas, porém, entretanto, todavia, mais uma vez a MTV fez uma
propaganda enganosa do trabalho de um cara realmente criativo por conta de um
incidente isolado. Me dei ao trabalho de fuçar a discografia básica de Billy
Idol e descobri que gostava desde pequeno de uma série de canções dele que não
sabia quem tocava, entre elas temos "Eyes Without A Face",
"Rebell Bell", "Sweet Sixteen" (é uma história bem triste, uma letra a se conferir), "White Wedding",
"Flesh For Fantasy" e, é claro, "DANCING WITH MYSELF"!
Depois dessa
descoberta creio que resta uma lição para todos nós: nunca confie na MTV! Mesmo
com mais de 30 anos de carreira, este cinquentão ainda se esbarrou pelo
hardcore (World Comin' Down), Americana/Western music (John Wayne) e até pelo
Heavy Metal melódico (New Future Weapon). De fato, Billy Idol sempre foi um
Punk com um pé no Hard Rock desde o início de carreira, o que torna seu som
realmente bem interessante.
Ouçam por vocês
mesmos e tirem suas conclusões na nossa pequena seleção do Billy Idol e alguns
covers dignos de nota de bandas influenciadas por ele (não se preocupem, o
Supla não entrou na lista! Kkk).